Adrilles Jorge


Ar

O ar que aspiro

inspira a indiferença
da brisa que acalenta
o teor do vazio

Vazio que respiro
é matéria do ar
que sustenta e alimenta
e mantém viva
a intenção de desvio

De ar me expiro
incitando a inércia
que respira a dúvida 
da dor que me crio.

 



Escrito por Adrilles Jorge às 22h40
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Ignorância

 

Não se sabe tempo o tempo que medimos

perdas e ganhos desmedidos pela ignorância da sorte

Não se sabe amor o amor que criamos

para compensar a desmedida que valemos

 

Não se veem os olhos com que adornamos

a imagem da criação que não entendemos

porém tentamos

 

Não se furtam as coisas de existirem

embora não se saibam e se ofereçam

ao nosso olhar e interpretação

em sua complacente doação sem causa

 

Assim não nos sabemos

e nos tentamos e nos doamos

com causa forçada, sem mérito

e nos criamos pela entrega

à nossa ignorância calculada.

 

 



Escrito por Adrilles Jorge às 10h35
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Antologia do engano

 

Esta música que engana
com sua melodia orquestrada
que reintegra o caos de sons dispersos
no engodo da harmonia que me embala

Este quadro que me limita
em sua visão de uma ação que aspira ao todo
colorindo, matizando o instante que se dissipa
que se perde e se inventa na lembrança da mão que o pinta
e no olhar que o revela desvelando a intenção de sua pintura

Esta pedra que se quer gesto, ornamento, monumento, cidade
que se esculpe pela vontade
e se quer intenção de sentido
que se nega, volátil porém
como pedra complacente 
ao toque do escultor que  a inventa

Este toque que agride e acaricia
que também me engana, por concreto
e por responder o sentido da abstração
que não o explica

Esta escritura, este poema que se quer ordem
ordenamento de uma realidade que se vê ficção
por ilusória mesma ser esta distração
que
palavra por palavra
gesto por gesto
toque por toque-nos distrai
de uma distração maior
que nos embala, ilude e inventa.

 



Escrito por Adrilles Jorge às 15h13
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Nunca, ainda, sempre

Às vezes, sempre é muito vago
porque nunca é o bastante
Nunca, ainda , não é raro
mas sempre é mais adiante.



Escrito por Adrilles Jorge às 02h37
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Cinco sentidos e uma falta de explicação

Escuta

é o silêncio que pousa em tua voz
como a explicação terna e cínica
do nada que te esmaga e afaga
como a língua das respostas
que lambem seu sorriso de esfinge, te povoando

é a cegueira que repousa teus olhos
do limite do horizonte
que outrora limitava tua encruzilhada
e agora abre caminho para que contemples o toque

Toca
o segredo escancarado da tua ausência
habitando a multidão de teus abandonos
reprovando o sabor da tua existência
erguendo o ar que sustenta tua queda

Sente
o aroma tátil da voz invisível
que lapida o confortável gosto da tua nudez.

 



Escrito por Adrilles Jorge às 17h27
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Um corpo à espera de uma eutanásia ou possível ressurreição que seja


O corpo permanece vivo
em lânguida morte que o espreita, adiada
Semi-estático, o corpo ainda responde ao toque:
pulsão da lembrança de um desejo da intenção de uma resposta-
que não virá, antes pela indefinição de uma pergunta
e ora pela fadiga tátil da procura
O corpo ora adormece, ora se exprime
em espasmos de tédio e espanto
por não se perceber ou não se orientar
nos modos civilizados de seus usos e desusos
Por ora, o corpo se abusa de seus usos devidos e indevidos
O corpo não se deve nada que não seja
o devir de uma longa aprendizagem não concluída
e ainda não devidamente iniciada e sempre e ainda recomeçada
que se posterga para além de seu fim
Póstumo, o corpo realiza sua transcendência
em sua convulsão articulada
que deixa convulsionados os movimentos
e afetos de corpos ainda socialmente móveis e moventes
que adornam a patologia do ansiado paciente
cuja impaciência explode para fora da sua intenção esmaecida
para fora de sua consciência exaurida
para fora da vontade dos que o guardam, embalam e o esperam (onde, como, por que?)
O corpo se mantém vivo artificialmente,
com a ajuda do artifício dos que o esperam
Os corpos que o observam mantém vivo
o artifício do cuidado com que o percebem
-e não o explicam
e se mantém vivos, também, por ora e sempre
com a ajuda de algum artifício
em lânguida morte que se espreita, adiada.



Escrito por Adrilles Jorge às 04h03
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Aquela que se foi

Aquela que se foi não manda lembranças
Antes permanece como ausência tátil e consentida
entre o afeto deslocado e a memória do que poderia ser
Aquela que nos deixa permanece
próxima e distante como o conceito de humanidade
que abraçamos com complacência simbólica
e torcemos com retórica furtiva
coletiva em seus múltiplos desvios
que se distribuem e se destituem
no discurso que a define e perde
Aquela que se perde se ganha
na volta do que não se fecha
do que não morreu a tempo
de nos deixar inteiros
em nosso abandono incompleto
Nós, que não fomos
que exasperadamente não nos abandonamos
voltamos sempre-por distração do tempo
para aquela ou o que quer que seja
que se perde no caminho.


Escrito por Adrilles Jorge às 02h50
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Quod erat demonstrandum

Nomeamos- por indizível- o que não nos cabe
Onde não há objeto palpável,
tateamos a criação de uma intenção
Quando dizemos amor, ódio,vazio, tudo, qualquer
dizemos corte
do que nos cabe em nossas frestas
por onde sopramos nossa voz descabida
a fim de estabelecer o espaço de um eco
que flertará com o elo de outro sopro
a ecoar um desencaixe desmedido

Tateamos descabidos nosso cabimento
na nomeação que nos tatuam:
quando dizem Jorge, Patricia, dizem alguém
mas não algo do que somos
ou projetamos ser pela nomeação de nossos sentidos
Quando dizem nós, dizem ninguém
quando nós entrelaçados somos a corda esmaecida
a amar o repuxo atrevido da refundação de outrem
em nodosa reprodução desassistida
pela força centrípeta do esforço de um toque

Embaralhamos, indevidos, a poética de nossa desnomeação
onde quando, por sem opção, lambemos a cria
do batismo de nossa escolha
-corte do cordão do embrião multivitelino -
que nomeará a gênese cartesiana
de nosso parto atemporal.

 



Escrito por Adrilles Jorge às 06h09
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Soneto indolente

Espero furtivamente, lânguido
por um milagre que não aconteça
por uma graça que me esqueça
ao pé da arte do descuido

Desespero a ânsia de um fato
pela ação do sono voluntário
ao infame despertar necessário
à póstuma comunicação de um ato

Exaspero a intenção de um desejo
emoldurando a foz de uma quimera
em vielas ao curso de um varejo

Sobrevivo atemporal ao fracasso
deitado a ansiar a espera
por outra utopia em descompasso.



Escrito por Adrilles Jorge às 10h58
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Proximidade


Por muito próximo não se vê
o que se esconde
no espectro que turva
ou reinventa uma verdade palpável

Por dentro se percebe
o planeta como centro
que ao longe se descobre
poeira no universo

Por muito próximo
não se toca
a contemplação do todo
no corpo do desejo
da plenitude da obra
que se esconde no detalhe

Por muito perto se sente
a mão que acalenta
a pele da vontade
na carne da escultura
e por incerta distância se sente
a lâmina que esfaqueia a tentativa
empunhada pela mesma mão
que golpeia a projeção
e retalha a intenção

Por dentro, não nos vemos
Por fora, da visão do outro
nos atalhamos e nos criamos

Por invisível se esconde
a distância que conceberia
a arte do juízo
que se quebra
por se espreitar sempre próximo
o medo de ser só
distante da ilusão
que nos aproxima
de nossa fraterna colisão.



Escrito por Adrilles Jorge às 14h55
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Perda de tempo

Perda de tempo, dizem
Mas onde o ganhamos?
Na perda, ensaiamos o ganho
da experiência
e a desperdiçamos
nos hiatos futuros
do texto difuso
de nossos enganos

Perda de tempo, sussurram
E como o ensaiamos?
No seu uso, abuso de retórica:
conceitos utilitários que manuseiam
sua fuga
percorrendo os dedos
que agarram apenas
discursos planos

Perda de tempo, silenciam
E a que o somamos?
Em que o encaixamos?
Em caixão póstumo,
onde se veda participação ativa
de uma ação afeita
ao tempo que a anula,
de uma ação sujeita
à subtração de valores
que a permuta

Perda de tudo, esperam:
procriação das perdas
em gerações futuras
de novos enganos
consolidando o sentido
de supostos ganhos.



Escrito por Adrilles Jorge às 18h19
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Forma

Mesma matéria nos forma:
átomos, prótons, nêutrons
a embalar a mesma substância
que nos conforma ao mesmo fim

Mesma ausência nos deforma:
dor, perda, mágoa
a desnaturar a natureza
que nos informa do óbvio
que não nos consola

Mesma presença nos reforma:
outro mesmo ser
objeto a refletir a inversão
dos mesmos contrastes
que nos tocam

Mesmíssima forma nos entalha:
carne, sangue , pedra
ao molde que não nos cabe
ao cabimento que não nos resolve
à indiferença
do que não nos informamos
do que nos cria e forma

Distintos talhes nos cortamos
a fim de tecermos o disfarce
das diferenças
que nos destóem e reformam

Do que mais além
nos forma
deforma
reforma
nos informa a resposta silenciosa sem forma
energia escura
a reverberar a pergunta
em frequente expansão
como universo
versando sua explosão a ruir
que nos confunde
e transforma.



Escrito por Adrilles Jorge às 13h53
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Dado

Deu-se sem saber a quem ou que
na medida exata
da forma que o encaixava
na forma inexata
da medida que o açulava

Deu-se, inequívoco,
por acerto trespassado
entre a burocracia do desejo
e a incerteza da intenção

Doou-se, exasperado
pela sede de doação
pela ânsia desesperada
do sentido de uma ação

Vendeu-se a preço
de uma verdade tátil
que tateou o desenho frágil
ao toque de sua criação

Ofereceu-se como sacrifício
à febre de sua ilusão
e foi ofertado ao consumidor
como oferta em liquidação.



Escrito por Adrilles Jorge às 22h34
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Fugir de si

Fugir de si 
é tarefa inescapável
nem tão hercúlea 
mas quase inelutável

Prender-se à sombra
do que de si se espera
é forçoso caminho
à complacente quimera

Mirar-se à margem 
do que de si se inventa
é ater-se à sombra
do que de si se tenta

Fugir de si  dá-se no avesso
do corpo em consonância ao tropeço
que a cair, por pulsão se levanta
ou por cotidiana morte, se agiganta

Escapar ao revés da fértil criação
que por criada se reproduz em máscaras
a esconder um rosto em furtiva traição
ao concreto que se quebra em cascas

Fugir de si em direção ao outro
ao encontro de outra invenção
fugir de si em fuga à resposta
Como resposta à responsável prisão.



Escrito por Adrilles Jorge às 14h35
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O que, onde, quando

No sentido, me perco.
Me extravio
na premissa do significado.
Agonizo na intenção
da memória do amanhã.
Tergiverso
na recondução ao esquecimento
e me esgoto na permanência.
Quando sempre, estou efêmero.
Quando nunca mais, concebo
a pretensão do meu parto.



Escrito por Adrilles Jorge às 15h18
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