Adrilles Jorge


Cantiga de acordar n 2

Livrai-me do nada, eu pedia
E o nada persistia
Bravio, indômito, a vencer o meu dia
Como, de resto, nada mais podia
contra o nada, me rendi,furibundo
com nada mais a colher do mundo

Mas eis que um certo velho dia
do nada, plantei a epifania:
do nada, criei seu avesso
refletido na carnadura do começo
de um ato trespassado por seu fim:
liberto de nada, enfim...

Bastou um aceno ao vento
e este, em prestimoso lamento
me soprou, em tediosa harmonia
que o nada nada mais podia
contra a brutal indiferença
do nascer de um novo dia

Livrai-me do nada, eu pedia
e em alegre desespero, percebia
que de seu provisório desterro
o nada agora me sorria.



Escrito por Adrilles Jorge às 04h20
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