Adrilles Jorge


O real

 

O céu mente sua imagem real:
estrelas mortas, astros não nascidos
esperam pela luz que não chega a tempo
aos nossos olhos
que também nos mentem
a matéria vista:
os limites da nossa visão
enxergam a beleza do rosto
que não se desfigura nos póros abertos
cicatrizados pela generosidade
de nossa cegueira

O que olhamos nos olhos alheios
é o ideal virtual
de como queremos ser vistos.
O verde da grama sintética
apascenta os nossos pés
que sentem a natureza
de uma humana invenção.
O sabor do fogo
alimenta o gosto
da besta cozida
pela real civilização
O calor do sol
em nada se compara
ao afeto fabricado
de uma amena calefação.

A vida cria sua imagem irreal:
paisagens mortas, corpos não nascidos,
crias não vividas
não esperam pela luz que atravessa o tempo
a olhos vistos
que também olham
para além do que cria
nossa mesma imaginação.

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Escrito por Adrilles Jorge às 03h49
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Por dizer a um amigo

 

Não houve silêncio suficiente entre nós
Não houve a distância necessária
que tornasse possível 
a visão próxima um do outro

Não houve a distância necessária
que nos aproximasse
Não houve distância
que desaproximasse a colisão do afeto
que se arrebenta na palavra inexata
que não exprime
a didática difusa do amor
que veste a roupa desalinhada
da posse do amigo
que vai se afastando
na expressão descosturada
da perda do amor que nos reveste

Não houve palavra suficiente para nós
que não perdesse a posse do silêncio
que grita o que palavra não conseguirá dizer
do sentimento que a verbaliza
e sufoca na intenção

Há ainda e sempre 
entre nós 
o aperto de mão não consumado
eternizado na distância 
que nos caminha.

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Escrito por Adrilles Jorge às 03h29
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Agora antecipado

 

A eterna mordida na fome da maçã
tem mais sabor
que o gosto da fruta
que se consome
na boca breve
que engole
a espera do prazer

O beijo adiado
saboreia a volúpia
da fome de sua espera
que se esgota
na morte provisória
que aguarda seu encontro

A morte devora
aos poucos
um corpo que a abriga:
um corpo
que come vida em espera
pela fome de algo além
que saboreia a dor 
que a conserva 
eterna.

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Escrito por Adrilles Jorge às 17h22
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Caim

 

Nada havendo
nada se bastando
cria-se algo
cria-se o desejo de algo
cria-se a imitação
do desejo de algo

Nada havendo
tudo se cria
pela comunhão por algo
Nada se bastando
tudo transbordando
cria-se a morte por algo

Cria-se o filho 
Cria-se o irmão
a quem se mata 
pela criação de algo
cria-se a morte do desejo
que recriado
transborda
pela sede de algo mais

Cria-se
para além da morte
na fome do desejo
o molde de um deus que se cria
para a criação de um tudo
que não se  basta
para a criação de alguém
e que enxerga para si
algo além
de sua fome

Tudo havendo
nada se bastando
no sangue transbordado
crê-se em algo
para além 
do desejo de algo
Crê-se na mão 
do assassinado
que se estende e toca
na esperança
do irmão ressuscitado.

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Escrito por Adrilles Jorge às 23h00
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Além do que é

Amor é procura constante 
que não se esgota em seu encontro
Amor é construção permanente 
de um caminho 
que jamais se conclui na chegada.

 

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Escrito por Adrilles Jorge às 17h35
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A vida não me basta

 

A vida não me basta
a vida não se basta:
não esta que eu realizo
nem sequer a outra que idealizo

Não me basta você que eu amo e perco
nem a perda do que amo em você
nem me basta não encontrar você
onde me perco no engano e sonho
em outro alguém
que nunca se acha

Não me basta não bastar
e não entender o que não me basta:
esta fome de querer mais 
do que não me sacia

Não me basta viver
ou não se viver
ou se perceber o real
e não se realizar o que jamais se desata
em outro lugar ou outro alguém
que nunca se mata

Nem me basta morrer ou não morrer
porque em morte
vida não se acha
porque em morte ou vida-
vida não se acha

Nem me acha o engano de lhe encontrar
ou me ver
na ponte de me perder
porque encontro não se acha
na perda que não se basta
na vida que mesmo 
no sonho real de se viver-
não se encaixa



Escrito por Adrilles Jorge às 04h45
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Uma vida em breve cronologia dentária

 

Um primeiro dente nasce:
primeiro esboço da fome
de liberdade 
que morde 
o seio ausente do conforto

Um primeiro dente cai 
decepando a primeira infância
enraizando novos caninos
que devoram a mordida do sentido
de uma nova arcada

Outros primeiros dentes caem
desenraizando o sentido da falta
que suga o desejo de uma nova infância

Próteses dentárias nascem
e mordem o silicone
de um seio que nutre
a fábrica madrasta 
do desejo
de um tempo que se trai 

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Escrito por Adrilles Jorge às 22h21
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Significado

 

Um corpo não revela a ação 
que o anima
nem o desejo
que o ilumina:
a si o seu mistério
se ensina

A ideia
abriga a ação
que a executa
e desnuda o roubo
no ato
que a transmuta

O passado
do presente nunca se ausenta
e recriado
do futuro se alimenta

Toda morte
contém a vida
que a remove

Toda palavra
ilumina a sombra
do que ela esconde


Escrito por Adrilles Jorge às 11h22
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Suborno

 

Compro teu silêncio
pelo desvalor de nossa palavra
que nada diz
a respeito da falta de sentido
que ela silencia

Compro a mudez
do que te digo
que berra a voz
da desrazão
porque me entrego

Compro o poder 
de ser adornadamente amado
pelo espesso prazer
de ser turvamente odiado

Vendo uma verdade
que me mente
e convence
do engano a que me doo

Suborno o vício
pela virtude
em que me escondo
e que se dá de graça
ao prejuízo a que me vendo



Escrito por Adrilles Jorge às 02h39
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Transumano

 

Esperamos a criação de um robô 
que imite à perfeição
a imperfeição humana:

os gestos incalculados
a matemática imprecisa dos afetos
que se criam à imagem e semelhança
de uma fome que se devora na curiosidade
de criar-se um sentido - 
na fome de livrar-se da falta de sentido:
um robô que invente amor ódio
e outros apetites não banais
que sublimem a indiferença (tão demasiado humana)
e que ame o que for mesmo não sendo amado
que odeie e massacre sem razão lógica 
que não seja a incompreensão do amor que ele criou

Um robô que mimetize a criação de alguma ideia
que explique as próprias condições de sua fragilidade
e não ofereça soluções prontas para o impasse que cria

Um robô que poetize sua existência, 
subvertendo a funcionalidade de seus gestos, 
ações e linguagem

um robô imperfeito que cria um deus humano à imagem e semelhança e superação
do deus imperfeito que o criou

Recriando sua imperfeição, o homem será então 
mais que perfeito:
será sublime como o gesto divino que ele inventou.



Escrito por Adrilles Jorge às 23h03
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Quase otimismo

 

Em nome do bem, um mal provisório
que se instala num quarto
como convidado de véspera
e prolonga a visita
alimentando a casa
e a todos cativa
com sorriso familiar
e a todos mata
felizes
com palavra exemplar

Em nome do amor, uma bofetada
que deseduca a indiferença
e ensina a paixão de um ódio calmo
e generoso em sua retribuição
sem cálculo

Por justiça, o sacrifício
do injustiçado
que se martiriza
pelo nome
do que não sabe nomear

Pela vida, matar-se
por um ideal além do alcance
que desconversa sua oferta
ao ofertar-se em invisível horizonte

Por um gesto insabido
por um olhar encolhido
por uma palavra inventada
por doação impensada
um bem provisório
que se instala nos fundos
e parte, ligeiro e discreto
logo esquecido
mas que promete voltar.



Escrito por Adrilles Jorge às 23h38
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Violência


Uma enorme gentileza
no modo como me violentava

Um discreto pudor
com que experimentava
o toque idealizado
da bofetada de uma carícia
ou o afeto honesto
de uma bofetada

Delicadamente
também me desprezava

Com ódio
me respeitava

Com amor
me torturava

Nada me pedia
ou ofertava

Com doação sem causa
me ignorava

Com terna 
e paciente indiferença
me acariciava

Uma enorme gentileza
no modo como me violentava

Uma brutal delicadeza
no modo que sua adoração
não me olhava.

Caminhava
à sombra de seu abraço
que me estrangulava.


Escrito por Adrilles Jorge às 17h14
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Por fazer

O gesto não feito é sempre o mais lembrado
a palavra não dita é sempre a mais ouvida

Todo caminho não trilhado 
pavimenta seu desacontecido 
na memória
do amanhã que ainda ontem
não se perdeu

Todo caminho não trilhado
se encontra hoje
na noite 
que ainda não amanheceu

A palavra ainda não escrita 
é sempre a mais buscada

O gesto ainda não descrito
é sempre o mais louvado.



Escrito por Adrilles Jorge às 22h16
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O transeunte

 

Passeava.
E devorava tudo que passava:
bocas, olhos, pernas,
sombras de corpos 
de almas
que criava

à imagem e semelhança
da realidade insabida
de cada um
cuja distância tão próxima 
o esmagava

Andava
Engolia sua fuga
que em si se dissipava

Tudo queria, a todos pedia
o nada de si que vomitava

Como fixar em uma só pessoa
o coletivo que arrendava?

Não amava. Desesperava
a espera por todas as outras
que em nenhuma só pairava

Implorava silencioso
a tudo que o negava
enquanto comia a fome
que de si exasperava.


Escrito por Adrilles Jorge às 03h49
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Poema cansativo

Chega a hora em que tudo cansa
e cansa mais o cansar-se de tudo
e nem descansar-se 
do que nem mais se sabe cansar-se adianta

Chega um tempo 
em que nem nada fazer adianta
que o ato provisório sem descanso
é um mantra
porque o tempo nunca descansa

Não chega o descanso
nem mesmo
a quem tudo pensa que alcança
porque tudo foge
à sombra do querer
de sua lembrança

Chega a hora sem hora
em que o ato lhe é atado
mesmo por erro trespassado

Foge o erro
à esperança
que esta plena se desespera
e atravessa a própria espera
que nunca alcança

Chega agora um depois
em que nada mais cansa
em que tudo é esperança
de se agir 
no futuro da lembrança.



Escrito por Adrilles Jorge às 16h39
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