Adrilles Jorge


Semi-perdas

Das mortes que vivi
muitas não me mataram
Outras ressuscitaram
a fonte jazente do que perdi

Das mortes que me habitam
todas quantas me traduzem
as graças turvas que reluzem
aos ocos ódios que me incitam

Às mortes que matei
presto fúnebre estima
do que em inútil esgrima
me perdi no que ganhei

As mortes que vivi
de pouco me valeram
e a esmo pereceram
no vão do nada que perdi

Das mortes que vivi
muitas há que não cri
e em mortes não crendo
por tudo ou nada não morrendo

em vida ainda não morri.



Escrito por Adrilles Jorge às 17h01
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Ligeiro questionamento metafísico

Renunciar a que, se acaso fui renunciado
por meu desejo e intento?
Circunstanciado, crucificado pelos fatos,
me vejo em pagão dilema:
posto que a honra da recusa me  foi imposta pela falta,
serei probo, santo, herói, ainda que tergiversado de convicção?
Cínico também não, insciente do despropósito que não me redime
nem sequer me define.

Bezerro indigo do sacrifício,

sacrfício indigno aos comensais,

serei eu mártir à revelia,
avesso à tortura canônica,
tangenciado pelos desconsolos da fome de Outrem,
cuja piada transcendente
digna de beato escárnio
encarna-se em humano destino? 

Bênção à deriva, minha inação enviesada
será ungida pela revelação da dúvida
que alimenta  a pureza espúria
do que quer que habite meu abate.



Escrito por Adrilles Jorge às 08h25
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Dois poemas

À ESPERA

 

Desde sempre, ainda te espero

quando tua ausência já se firmava

e fincava a esperança da morte de nosso abandono

 

Te espero continuamente

desde antes e depois

da espera de caminharmos juntos

não um caminho contínuo

mas um emaranhar de passos entrecruzados

desencontrados no encontro desesperado

de nossas encruzilhadas

 

Te espero no retorno

do que não foi ou será

mas na volta cíclica do que é

ou de além do que venha a ser

na perene presença da ânsia

na vinda eterna da descoberta sacralizada

na memória brutalmente onírica do instante

que arrebenta a fome do toque esperado

que inviabiliza o tempo

que implode a espera

e que revela tua presença atemporalmente

mais próxima

do que jamais conceberá a distância

 

DESAFORO AFETIVO

 

Não mais possuo os restos vivos

do teu desejo fabricado pelas circunstâncias:

é de outro hoje e sempre por enquanto

teu corpo materializado pela perda

Mas ainda sobrevive, impávido, o vislumbre constante

das tergiversações de teus (des) propósitos

 

Meu chão renovado é a tua impermanência

onde me aninho no ventre prenhe de tua incerteza

Meu esteio é o contorno infantil

de teus lábios crispados

em tortuoso  irônico pretenso sorriso vitorioso

 

a zombar-inadvertidamente ambivalente-

insciente de teus tropeços calculados

e da urdidura de tuas quedas

 

Meus afetos sinceros

vão para teus nossos projetos previamente destroçados

onde e quando então, de nossos pedaços misturados

recolherei fragmentos

da memória de nossos corpos unificados

 

e erguerei a estátua de nosso assombro despedaçado.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Adrilles Jorge às 01h14
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Feliz


De onde vem este sopro frugal
a macular minha doença?
Que verso compassado é este
que desalinha minha encruzilhada?

O esboço do corpo inviável desaba
ao toque estéril da alegria primeira

Ora virulento, o afago da felicidade
não mais se coaduna
ao sentido torpe de desvio
batizado por meu tempo

Protesto contra toda beleza
que, injusta,
corrói o bem comum,
esquartejado pelo desejo

Protesto contra o ego,
este que agora me encima
e me embrulha
oferecendo-me à doçura nefasta
de minha complacência

Protesto contra o êxtase,
que estupra meu sono

Protesto contra a plenitude,
que me arranca de meu beco

Mas meu berro não reverbera aos meus ouvidos
que só ouvem
o surdo som de meu sorriso.



Escrito por Adrilles Jorge às 10h32
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Cantiga de acordar n 2

Livrai-me do nada, eu pedia
E o nada persistia
Bravio, indômito, a vencer o meu dia
Como, de resto, nada mais podia
contra o nada, me rendi,furibundo
com nada mais a colher do mundo

Mas eis que um certo velho dia
do nada, plantei a epifania:
do nada, criei seu avesso
refletido na carnadura do começo
de um ato trespassado por seu fim:
liberto de nada, enfim...

Bastou um aceno ao vento
e este, em prestimoso lamento
me soprou, em tediosa harmonia
que o nada nada mais podia
contra a brutal indiferença
do nascer de um novo dia

Livrai-me do nada, eu pedia
e em alegre desespero, percebia
que de seu provisório desterro
o nada agora me sorria.



Escrito por Adrilles Jorge às 04h20
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Fábrica


O fato se perde
nas divagações que o sugerem

Perde-se a natureza
na origem da semente
do fruto do desejo
que a concebe

Plácida, toda intenção de real
dilui-se na fábrica do acaso

De fábrica em fábrica, revela-se
o espelho do que inexiste:
toda morte é um hiato da imaginação
toda vida é um atropelo da carne que a ultrapassa

Perfaz-se a curva(também fabricada)
que retorce as tangentes
e sublima as retas:
do afeto-também fábrica-restamos nós
iludidos
enganados
agraciados
por nossa opção única
de eterna reinvenção.



Escrito por Adrilles Jorge às 01h40
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Vidicídio


Plantei em solo fértil o broto de minha cova
Sou a fenda vertical
de minha autópsia expansiva
viva
cavada aos pés do que me encima

Coberto de terra e céu
me esquivo da sobrevida
onde avesso ao meio
prendo o fim ao princípio
assim como seja em particípio
e para todo o sempre Amén

Plantei em solo fértil o broto de minha cova
e colho agora meu cadáver sorridente
que me incita à vida.



Escrito por Adrilles Jorge às 23h43
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Sem musa


Canto em silêncio o que não sei cantar
Canto o voo sem asas do sobrepeso do nada
a incensar o berro incontido da impossibilidade

Canto aquém de mim
o que poderia ser
a música insciente
do que me supera e me atravessa
o som dos ouvidos surdos
que aplaudem meu fim

Canto por fim o princípio do cantar
que é dizer ao léu
gradiloquentemente
a mudez da sobrevida
à luta perdida

que se ganha porém à margem do eco
destoada do coro consonante
da profissão de vozes uniformes

Canto o amador que ama torto
o canto trespassado pelas vaias do mérito
Canto o improviso sublime
do ensaio do despreparo.



Escrito por Adrilles Jorge às 03h55
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Manifesto da inabilidade


Nós, os inábeis, venceremos
pelo triunfo desenganado de nossas perdas
Por nossa atuação canhestra
haveremos de estabelecer a pedra fundamental
da apoteose do despreparo:
histriônicos, canastrões, falsários
de nossos sentimentos contrafeitos,
revelaremos pelo avesso
o disfarce de nossa nudez
expectorada aos cantos
de nossos vícios enviesados,
banhando de verdades tortas
o aleijão de nossas virtudes inacabadas

Nós, os inábeis, por nossa queda burlesca
desataremos o nó do sublime
descortinando a já anciã descoberta
de nossa ignorância ancestral-
bálsamo  mais afetivo de nossa inutilidade

Nós, os inábeis,por nossa impostura sem cálculo,
infantes,esboçaremos o desenho febril
de nossa natureza fabricada

Nós, os inábeis, somos muitos, somos todos
Só nos falta o mútuo reconhecimento
para o sucesso luminoso de nossas sombras.



Escrito por Adrilles Jorge às 04h34
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Nada menos

Nada
menos que nada:
aquém da possibilidade do silêncio
matura esta ínfima morte cotidiana
escoando nos póros, valas abertas
de um projeto inacabado de solidão


menos que só:
a companhia da pele nodosa
e seus despojos de sangue e mágoa
ressoando sombras de descaminhos
na treva esmaecida da memória do amanhã
onde refulge esta luz negra
que ilumina toda palavra

Agora, já não mais:
nada, menos que nada
à espera de algo menos
que esta paz angustiante
que sufoca tudo mais.



Escrito por Adrilles Jorge às 02h12
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Criança

Nasce amor, obtuso, ignaro,
entre espasmos de espanto e medo
sujo da placenta viscosa do sublime
berrando pela perda do plácido conforto
do desejo indiferente
 
Cortado o cordão do ego uterino
segue amor em sua gênese intermitente
antisséptico
coberto de dor e espera
evacuando o vácuo da solidão
nas dores de seu crescimento
 
Tocando a existência
tateando a busca de seu sentido
morre amor em silêncio precoce
antecipando sua procriação senil.
 


Escrito por Adrilles Jorge às 09h59
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Um cão, apenas.

Um cão me olha
em bruta súplica de afeto
sem ambigüidade latente:
plácido translúcido mendicante
 
Atendo ao apelo do cão
entre constrangido e complacente
ao humano reflexo canino
do meu ganido silencioso:
enviesado turvo mendicante
 
O cão festeja  meu toque
sem pejos ou escrúpulos de vergonha
insciente da minha pretensa indiferença calculada.


Escrito por Adrilles Jorge às 19h37
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O enxadrista

Para ser vencido é preciso complacência
afeto distribuído às pequenas mortes do dia
carinho às supostas injustiças sofridas
 
que justas ou indiferentes aos alheios
reverberam em nós, derrotados,
como íntimo contrapeso de um nada
que nos redime de nossa consciência
 
Aos vencedores, o aleitamento do ego
Aos ceifados pelo aborto do triunfo
a semeadura dos cacos do reflexo partido
que adoçará a boca dos rebentos da utopia
 
Para ser vencido é necessário um parto
para dentro de si mesmo.


Escrito por Adrilles Jorge às 00h10
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Meu Credo

 
Creio no que crio
no que não me pertence
na posse de minhas perdas
 
Creio no recomeço de um fim que não finda
no propósito que não define seu objeto
e que ama despropositadamente
 
Creio na mácula recôndita e indelével do branco
que translúcida filtra sua impureza
na virgindade fecunda dos desonestos
 
Creio na luz
que cega os atores de uma peça sem enredo
inventores de uma historieta de cochia
 
reconfortados pelo apagar dos refletores
que refletem suas sombras no tablado
onde ressuscitará um novo elenco
 
Creio nas chagas abertas de um Cristo Criado
à imagem e semelhança de um Deus Imperfeito
feito carne,sublimação do tédio do sublime
 
Crio o meu Credo à imagem de minha criação
Crio minha crença, minha filha sem dogma
que abortará a gênese da certeza.
 


Escrito por Adrilles Jorge às 23h34
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Contradições coerentes e inconclusivas

Nada sobrevive ao tempo
senão o íntimo desejo
da permanência do afeto
 
Nada sobrevive ao tempo
senão a irrealidade corpórea
do desejo de um fim
 
Sobreviverá o tempo, indiferente ao desejo,
qual invenção humana
na contagem dos despojos
da perda do eterno
inaugurada pela consciência
 
Morrerá o tempo, complacente ao desejo,
qual invenção humana
na contagem dos ganhos
da criação da consciência
 
Reviverá o afeto,
qual realidade humana
reinaugurando o desejo
da restauração do tempo
 
Tudo sobreviverá ao humano
que subsiste à sua perene sobrevivência reinventada.


Escrito por Adrilles Jorge às 10h00
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