Adrilles Jorge


Ao que desejo

 

E se pudesse não desejar o que desejo?
Se pudesse não desejar o que desejo
em nome de um desejo maior?
Onde achar a origem do que move
a ação de um desejo maior?
Como medir o tamanho de um desejo?
''Saciarás o desejo do próximo''
dizem os gozosos generosos do bem alheio.
Mas como medir a ação moral
do desejo de saciar o desejo do outro
com o de ensinar o que é um bom desejo 
ao outro em que nos refletimos
a fome difusa de um desejo desencontrado?
O que desejar quando o desejo é um entrave
a um caminho que não se acha?
A doação mesma tem suas perguntas
que jamais saciam seu desejo de resposta:
sua fome é sua resposta
que sempre nos devora.


Escrito por Adrilles Jorge às 00h41
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Delicias da insatisfação

 

O que gosto em você
é alguma ideia de você:
um dedo, uma orelha, um pensamento
um olhar furtivo que nunca encontra seu dentro.
O que amo e odeio no amor
é o ideal de seu uso e abuso:
uma palavra, gesto, corpo inexato
uma intenção esquiva
que jamais colide com seu pleno momento.
O que sobra na intenção
é a ação que nunca traduz
a execução de seu entendimento
ou o que não se basta
no desejo satisfeito
que sempre ejacula 
seu sempre irrisório provimento.
O que prazerosamente detesto mesmo na vontade
é o oco original que a entope
que me lança suspeitas em seu acolhimento.
O que jamais se enche de tudo
é o que sobra neste deleitável tormento.


Escrito por Adrilles Jorge às 23h14
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Ouça

 

É possível fechar os olhos
- não os ouvidos.
É possível não ver a forma
que engana nossa miopia
ou enxergar a cegueira
que tateia nossa visão.
Mas os ouvidos não se calam
pelas mãos que nunca impedem
toda música que nos atravessa
ou a palavra que nos expressa
ou todo som que nos inquieta.
É possível fechar o corpo
mas nunca se cala
a voz que nos acessa.


Escrito por Adrilles Jorge às 17h28
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Toque

 

Há uma parede invisível 
em cada toque
que impede a fusão dos corpos.
Há um limite em cada corpo
que proclama a sua unidade
que proclama sua solidão.
Há na beleza algo de inacessível
a quem a engole pelo olhar
que não se sente.
No sexo, a tentativa exasperada 
de invasão do inacessível
de agressão à beleza intocável
de assassinato da porta nunca aberta.
Na ausência, a fusão pelo toque consumado
na distância que acaricia a vontade perfeita
de união com um outro.
Há em cada abandono
uma parede derrubada
que impele
à fusão dos toques.
Eu nada sou
sem aquilo que tento
e jamais conseguirei tocar.


Escrito por Adrilles Jorge às 03h44
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Gravidade 2

 

Da ascensão à queda, 
apenas um passo:
um pé que se ergue
e desce articulando
o compasso da caminhada.
Do olhar que se levanta
para o valor que encanta
e cai
na medida
que o real
em sombras alegres
se decanta.
Do alto da cabeça
a consciência dos pés
que caminham;
a consciência dos pés 
que pisoteiam sua caminhada.
Da ascensão à queda
apenas um passo:
o pé que articula sua queda
como queda para o alto:
os olhares que se desviam
para um valor mais baixo
que os levanta
à altura da pequenez
que ao chão se planta.
Da ascensão à queda,
espaço para todos
os caminhos:
força da gravidade que atrai 
corpos para o colapso - ou abraço-
de um centro indefinido:
o chão que abriga sua queda
o chão que abriga o céu 
plantado aos pés
do tempo que se trai.



Escrito por Adrilles Jorge às 22h40
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Inveja

 

O lugar onde pisas
é o espaço do roubo
que pertence à cegueira clara
de minha inveja.
A inveja que me pisa
é o lugar que me roubo
de onde nunca estou.
Não estar em si
é espaço suficiente
para começar a caminhar
para algum lugar:
porque em si apenas
nunca se pisa em chão suficiente
sem o solo movediço de um outro.
Não há lugar suficiente
para ter ou ser o que se deseja.
Não há lugar ciente
do espaço que abriga
os passos do desejo
de ali estar.
Os braços com que abraças outro
enlaçam meu desejo - não de ti -
mas do desejo que ganha seu gosto
no despertar da vontade de outro sobre ti.
O olhar que se desdobra sobre ti
onde não te vejo
lambe meus olhos
que acariciam a cegueira
de sua presença sempre móvel
por onde meu desejo
cerca tua ausência.


Escrito por Adrilles Jorge às 19h52
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Acolhimento

Do teu ódio ,
eu colho a cicatriz da tua cegueira
e broto em teu corpo
a violenta semente do perdão
que ignoras.
Do teu ódio ,
justo pelas chagas surdas
da tua indignação ,
eu colho teu avesso
na sombra com que cobres teu sol
que me reveste no teu corpo
que me escondes;
teu sol oculto que me reveste
na semente do amor
onde tu me cresces .
Da rosa , eu colho o sangue
que molha o toque
que atravessa o espinho
do teu encanto .


Escrito por Adrilles Jorge às 02h40
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Lição de dezaprendizagem

 

Desaprender o desejo das arestas
do que não é cerne;
reaprender a sentir o cerne
pelas arestas que não são vistas
pelo que limita o desejo;
redescobrir algum prazer envisesado
nalguma dor esquecida
e subestimada;
redescobrir algo além do prazer
do que está na tediosa ausência de toda dor;
reaprender a andar para dentro
do abismo que o ampara
segurando nas mãos do tropeço;
desaprender o claro
que cega o escuro
que tateia a sombra
do que jamais se consuma ser
e reaprender- sem fim-
o que se cria;
desaprender a imagem do espelho
que não se toca;
reaprender o reflexo partido
no olhar turvo de quem 
cegamente lhe estende a mão;
reaprender o reflexo partido
de quem claramente 
lhe nega a mão;
desaprender mesmo
o que não foi feito
pelo erro da intenção
e desaprender a ação do passado
pelo cheiro futuro do esboço
de uma visão;
desaprender o presente
pelo agora eternizado 
de uma singela doação.


Escrito por Adrilles Jorge às 00h03
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Não basta

 

Nada se basta.
E o não bastar-se
entope seu buraco.
Nenhuma orgasmo se sacia
com sua pequena morte
que pede sua provisória ressurreição.
Nenhuma dor é tanta
que não ceda à teimosia da tortura
da esperança.
Nenhum sorriso
alarga o prazer
que nunca se basta.
Talvez a promessa de nos encontrarmos-
cujo cumprimento se trespassa-
tenha lá sua adiada graça.
Talvez a ternura da criança
ao pedir uma esmola
ceda o ar da plenitude
de uma infinita graça.
E nem mesmo seu pai explorador
que abusa de uma infante desgraça
elimine meu ingênuo gesto de doação
que nunca passa
-mas não se basta.



Escrito por Adrilles Jorge às 03h11
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Dinheiros

 

Perdi uma amizade quase verdadeira
por dois dinheiros desenganados.
Ganhei o que quase não valia a pena
por um esforço atado 
a um princípio burlado.
Criei a verdade do que quis
por duas éticas enviesadas.
Noves fora, lucrei 
uma solidão acompanhada
de fantasmas vivos que satisfazem
a aparência da ausência de paredes.
Vou comprando a dívida que me resta:
o tempo trespassado pelo saldo
de prazerosas pretensas virtudes sabidamente alimentadas.
Pequenas epifanias de troco:
o olhar agradecido do cão
pelo puro aspecto de uma errática
visão de seu dono que se doa
ao valor imerecido;
a memória deleitavelmente enganosa
da mulher avalizada pelos juros ideais
do futuro que se alimenta de um interminável
espaço adiante;
a expectativa nunca falida das pazes
através do pedido de perdão
ao amigo sabidamente estelionatário;
o filho, a amante, o amigo
 - trabalho vitalício de remuneração inexata :
a reprodução de mais pessoas
como papel moeda de valor abstrato sem substância
criado virtualmente como mercado de troca
do afeto que se oferece como crédito
de um valor que cria sua inarredável necessidade.


Escrito por Adrilles Jorge às 02h15
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Cadeia alimentar

 

A vida se alimenta de vida:
um leão estraçalha um cervo sem crueldade
a fim de sobreviver.
A dor torturante do cervo estraçalhado
não se espelha exatamente no desaparecimento
dos duzentos quilos diários de vegetação ingeridos pelo elefante, 
este vegano desmatador da natureza
que serve sem causa aparente aos olhos
que a amam ou à boca que a devora.
Para se alimentar faustamente do poder que dividem, 
macacos bonobos negociam  sexo e violência.
Mais prática, a viúva negra devora seu macho após o coito.
Só o humano é capaz de comer sua fome
a fim de poupar seu semelhante da desgraça da dor
ou desaparecimento.
Só o humano é capaz de inventar uma fome
a fim de se alimentar da vaidade 
sobre a dor derrota ou desaparecimento
de um semelhante.
Só o humano é capaz de criar 
semelhanças ou diferenças
que o impelem
contra a natureza de sua fome.
Só o humano
é capaz de se alimentar da dor 
da ausência de um alimento tátil
para comer transcendências.
A vida se alimenta de vida.
Só o humano canibaliza
sua insaciável interrogação
devorando sua natureza recriada.




Escrito por Adrilles Jorge às 14h24
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Da beleza e outras inconcretudes

Sob a marquise do edifício ,

 brotam lado a lado

um jardim e um mendigo 

que furam a ordem 

do concreto da cidade . 

Um recorte da natureza 

cuidada pelo homem e o homem abandonado pelo homem 

ataca os olhos dos transeuntes chocados por tão curiosa desnatureza. 

O jardim floresce ao dia

 oferecendo um laivo de beleza 

no cinza que o passeia . 

O mendigo brota à noite , 

doando o abandono à madrugada dos passos que o desviam , humilhando o jardim , 

que anoitece sua cor diante de tão miserável esplendor 

que cala sua beleza . 

De dia , cria - se um dispositivo 

- um método asséptico, limpo-

para molhar o jardim

 a cada quinze minutos 

e secar a presença desenraizada 

do mendigo ali plantado . 

O abandono do homem é 

podado enfim aos olhos e passos que contemplam , dia e noite , o jardim bem cuidado 

que ora respira a ausência

 da miséria evacuada

 do homem abandonado 

que com o jardim habitava .

 Uma beleza miserável passeia 

aos olhos do encanto indiferente

 do jardim , 

que ora se incorpora 

à ordem do concreto da cidade .



Escrito por Adrilles Jorge às 01h34
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Distâncias


 

Quatrocentos mil quilômetros
separam a terra da lua,
o satélite romantizado pela distância
outrora intransponível
que agora abriga os passos
que humanizaram o tédio solitário de seu solo.
Dois bilhões de anos luz separam 
a via lactea de andrômeda, nossa galáxia vizinha
ainda intransponível pelo mistério
de alguma vida que talvez passeie
na ausência tátil
do solo insondável da explicação do universo.
Poucos passos  me separam de você,
minha vizinha, passos que passeiam
a distância insondável 
entre a intenção e ação
entre a vontade de chegar e colonizar
entre a sua vontade de abrigar nosso caminho
e a impossibilidade de passear no solo
que sustenta o desejo
de passear no desejo de sair de si mesmo
de chegar a um outro sempre tão mais distante
que andrômeda aqui ao lado.

Da janela, espio as distâncias -
da lua, de andrômeda, do teu quarto,
de nós.
Do espelho, as distâncias me olham.


Escrito por Adrilles Jorge às 22h58
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Leve

 

Leve é o planeta
que dança em sua órbita
ou a pluma
que toca o chão
que a acaricia
Leve é cada falta diária
que nos toca
em cada presença
ou sorriso negado
como a leve formiga
que nos pica e é esmagada
sob o peso da leveza de nossa
quase inconsciente indiferença.

Bem leve o tempo que nos cura
da picada cotidiana
ou o chão que nos ampara
na queda nossa de cada dia
ou a picada  quase sem peso
que indiferentes oferecemos 
à primeira presa
que nos sorria.
Leve, tão leve
a ausência do teu sorriso
cujo peso
quase não se sentia.
Esmaga-se ou anula-se assim
o peso de um corpo em outro corpo
com a leveza de uma picada
ou do sorriso
cujo peso
agora se percebia.


Escrito por Adrilles Jorge às 21h18
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Anatomia utópica de uma depressão

 


Nenhum dedo se move
em obediência à revolta
contra a condenação da perpétua mudança.
Os olhos miram por dentro as pálpebras fechadas
que roçam a criação de uma luz escura
que cura a angústia da fome de contornos claros
de um foco que lambe os olhos
que se contentam em apenas enxergar as formas precisas
da indefinição.
Nem mesmo o tédio do desejo de morrer,
que esta é uma ação de amor
não correspondido à vida.
A depressão é a cura para a angústia
da criação extenuante de vida e mais vida.
Mas a doença clara- a vida clara- adentra
por entre as pálpebras mal cerradas,
se move
por entre os lençóis que roçam
a pele da lembrança de um corpo
a pele da memória do toque.
E os dedos se movem
E os olhos se abrem:
não há buraco 
que se esconda do céu
que oprime
sua falta de lugar.


Escrito por Adrilles Jorge às 16h14
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