Adrilles Jorge


Confinamentos

Vários são os confinamentos voluntários 
que pavimentam o caminho da liberdade:
os passos dentro de um quarto passeiam
a paisagem equidistante 
entre o quadro da janela
e o que foge e sobra
à imaginação.
Vários os confinamentos livres:
ambientes de trabalho, namoros, casamentos, amizades, rejeições e aspirações
são companheiros de cela escolhida de onde escolhemos
os desejos herdados pela tradição que nos escolhe.
Alguma coisa na encruzilhada cheira a algo nunca visto
que abre a porta do quarto ou voa para fora da janela
e se espatifa no chão do céu de sua libertação.
Vários são os tédios voluntários
que pavimentam os cansaços da liberdade:
o céu do teto do quarto visto da cama
é menos ilusório que o prisma
que tinge de azul o céu
da sobra de universo
que não vemos.
O céu do teto do quarto visto 
pelo sorriso do filho 
cercado pelo berço
abre o resto de universo
que não vemos.



Escrito por Adrilles Jorge às 09h25
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Operopositum

 

Descansa-se de uma atividade
pela sua contrária:
o esforço físico
pelo intelectual;
o fracasso do desejo consciente
pelo sonho imaterial do sono
ou no ideal projetado no futuro;
o futuro que não chega
pelo tempo morto ganho no ócio
do presente ou na memória
que não descansa o que viveu
ou deixou de acontecer;
os arroubos da poesia
pela lucidez calma e enganosa da prosa;

a vida material
pelo ideal tátil do espírito;
o nada inexistente
pelo tudo que o define e extingue
em eterna ressurreição permanente
de uma coisa por outra
que nunca morrem
que nunca se cansam de não morrer.


Escrito por Adrilles Jorge às 04h42
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Olhar

 

Não enxerga o mesmo um homem
que os olhos de um falcão
ou de um cão.
A paisagem é uma miragem
que se refaz a cada mirada
de cada espécie.
Não olha as coisas
uma criança
com os mesmos olhos
do que quer um homem.
O desejo é uma miragem
que se refaz a cada idade.
Não se encantam os olhos
sem a ajuda de outros olhos
que os ensinam a olhar;
muitos se encantam pelo encanto 
do que alheios olhos olham
e jamais enxergam
a própria cegueira;
cegueira
cuja íntima consciência
é própria dos que enfim
aprendem a ver.
A paisagem é um olhar
que se refaz
a cada toque
que a molda.


Escrito por Adrilles Jorge às 04h16
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Fui fiel a uma promessa que me traiu.

A promessa tinha corpo, ideal 
formato de uma coisa
que eu nomeei.
O nome não se colou à coisa,
o corpo mudou-se com o tempo
o tempo desnudou o falso ideal
que eu colei ao corpo da coisa.
Fui fiel a um nome que criei
para criar a minha fidelidade 
à traição permanente das coisas.
Hoje, tento ser fiel a mim mesmo
e me traio conscientemente
como coisa a quem colaram nome, ideal
e corpo que se transforma
ao sabor do desejo de quem não me define.

Sou fiel a uma promessa que me trai.


Escrito por Adrilles Jorge às 01h06
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Do que não é amor

 

Não há amor na vaca que não se doa
para ser o bife que a mãe tempera
com o afeto de doação
ao filho que ama.

Não é exatamente amor 
ou doação ao próximo
o desejo que mastiga 
o bife do desejo consumado
de um outro corpo
de um outro ouvido
que escuta e acaricia
a voz da fome do teu desejo.

Não é absoluto o amor
que se doa em sacrifício
e se percebe vaidoso
do heroísmo de sua doação
e requer o troco
de seu valor na história,

Nem mesmo o do pai 
que cria seu filho
para um abate público 
em nome de um amor
que não se explica
a não ser como a vaidosa
intenção perpetuada
de celebração de seu nome.

É menos que amado
o pássaro preso na gaiola
que atrofia seu voo
para encantar a fome de beleza
que condena sua liberdade
aos olhos de quem o prende.

Seria talvez quem ama
quem se prende ou se deixa 
morar no abate
ao seu carrasco que não enxerga beleza
em seu heroísmo silencioso
de quem não aprendeu se amar.

Tudo somado, nada seja amor de todo.
Talvez amor seja uma ignorância de seu propósito
como a gratidão do pássaro, 
cujo voo  inconscientemente ceifado
se rende ao agradecimento
pelo alpiste de seu carcereiro.




Escrito por Adrilles Jorge às 00h51
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politicamente correto

 

Uma infâmia lânguida e furtiva
percorre a pele do elogio que lhe faço
como um soco que acaricia a carícia
em que lhe afago.

Já não prezo o que lhe quero
não mais amo o que desejo.
Aninho em mim
aninho em nós
um cupim
que devora o afeto
que em palavra enalteço.

Resta este gesto mecânico de gostar
como um reaprendizado eterno 
do que se perdeu
e jamais retorna
por esgotamento de começo.

Outras palavras, outras pessoas
outros filhos, outros tempos
outras pontes
circunvagam à margem do precipício
que nos fazem andar
rumo à invenção do caminho
que nos percorre o tropeço.

Vamos de mãos dadas,
pronunciando cada palavra
do silêncio
que engole nossa falha de diálogo
Vamos de palavra atada
sussurrando para dentro
a criação
de nossa mais nobre intenção.


Escrito por Adrilles Jorge às 15h28
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Nascemos

 

Nascemos

no filho em que crescemos

ou indefinidamente

na espera pelo filho

que jamais teremos.

Nascemos na perda do pai

em que morremos.

Nascemos na traição do amigo

em que nos enterramos

ressuscitando no perdão

que rompe o hímen

do que vivemos.

Nascemos ainda

na memória criada

do pai , amigo, filho

que talvez jamais conhecemos.

Nascemos na ausência tátil

de uma perda

que tatua na carne da história

o passado em que estamos.

Nascemos sempre

na agonia deste eterno presente

que em vão matamos.

Nascemos na palavra viva e furtiva

que nos criamos

E na boca porosa em que nos dizemos

E na ação difusa

que nos enganamos:

nasce

onde jaz sempre vivo

o que nunca entendemos.

Não importa:

nascemos mais onde não nos sabemos:

no gesto de afeto que não merecemos

a contragosto à vida nos empurrando.

Nascemos sobretudo

na cega oferta de amor

em que nos perdemos.



Escrito por Adrilles Jorge às 22h31
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Indiferença

 

Nenhum grito ecoa tanto
aos nossos ouvidos
quanto aquele silencioso
que zumbia à nossa surdez voluntária
que berrava à nossa mudez ordinária:

o grito da criança morta
por nossa cegueira abusiva
o grito da ajuda voluntária
calado
por nossa consciência tranquila
o grito da miséria viva
por nossa ausência
amortecida
pela voz do pior suicida
que cala sua humanidade
ainda em vida




Escrito por Adrilles Jorge às 21h28
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Gratuidade


Há uma desrazão fundamental
no abraço permanente que uma mãe 
oferece ao filho assassino:
como se ela gerasse o filho 
permanentemente
a fim de lhe restituir gratuitamente
a vida que ele nega
quando a arrancou de outro
Há no amor irracional da mãe
ao filho assassino
a geração do Deus
que criamos
e que se doa eternamente
à negação de nossa morte.
Há no abraço da mãe
ao filho assassino
a desrazão fundamental
que nos gera a vida.

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Escrito por Adrilles Jorge às 10h00
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O infinito

 

É pequena a vastidão do universo
diante do afeto de dois olhos que veem
sua mínima parte do infinito
em outros dois olhos que amam
e que enxergam o horizonte de um fim
que não se acaba

É mínimo o horizonte eterno do tempo
diante da mortalidade humana
que tatua no instante
a breve eternidade do toque
a quem ama

É vazio o infinito
que não se pensa
não se toca
e não ama.

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Escrito por Adrilles Jorge às 11h58
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Nascimento

 

Passo pela rua em que nasci
Rua mudada cuja mudança
muda meu passado reinventado
Nada me lembro que não recrie 
ou confunda
na memória em que me invento.
A arquitetura moderna de rua hoje
habita a ruína da lembrança
de meu futuro transfigurado.
Rua deserta na madrugada
onde agora nada passa
em companhia da memória
de muitos que passaram e passarão
para desassossego da impermanência 
de um presente sossegado.
Antes da rua deserta em que nasci
a sombra lembrada da imortalidade
para antes de mim:
nascer não é passado:
nascer é para sempre estar
ao presente atado, todo o tempo
furtivamente atormentado.

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Escrito por Adrilles Jorge às 10h43
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Anjo baixo

 

Há um anjo que aninho 
e que me tenta
com a ternura de um diabo:
um anjo que me segreda traumas invisíveis
que temperam a frescura do rancor
a um inimigo a quem ignoro e abraço
com a complacência a um amor que odeio.

Há um anjo ruim em mim
que esmago sempre 
com delicadeza
a fim de não matá-lo completamente
porque também ele me sustenta
com seus olhos belos como chifres
que espetam minha fome de verdade
com o sussurro do engano em que me rio
do ódio a tudo que não vejo
e me acalenta.
Há no riso do meu cego ódio
este amor que me inventa.

Neste anjo, uma indignação 
surda a seu propósito
cria a ação de sua demolição
e recorrente ressurreição.

Este anjo me sobrevoa por baixo
a fim de que eu me eleve
acima da bondade trevosa
em que desabo.

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Escrito por Adrilles Jorge às 09h17
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Moldes de eternidade

 

Há vários modos de fabricar eternidade.
Uma múmia eterniza a hora de sua morte
legando aos vivos o registro embalsamado de seu corpo.
Um Botox ou silicone eternizam o desejo de beleza
registrando a morte da perecibilidade da carne.
Uma foto retém o voo de um pássaro,
engaiolando seu movimento no registro 
de imagem idealizada.
Uma memória eterniza o voo do pássaro
recriando seu voo para além 
do registro engaiolado do ato.
Uma ruína se eterniza pela arquitetura
que jamais desmorona
no registro da história que a ergue.
O sorriso de quem se ama se eterniza
como arquitetura que jamais se desmorona
no registro da história que o ergue.
Um fogo se alimenta pela brasa que o alimenta
na fogueira que alimenta sua chama
que revive no calor da cinza da madeira que consumiu.
Um amor ou ódio ou intenção afetiva ou intenção ideal
se recriam no tempo
como arquitetura reconstruída
de uma ação permanente 
que erguem um palácio que jamais desmorona
na ação afetiva que o reerguem
eternamente
pela chama alimentada
da memória do agora, 
que voa, com o esforço exaustivo
de suas asas
para além do registro engaiolado
da morte do momento 
jamais mumificado.

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Escrito por Adrilles Jorge às 13h08
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Amo

 

Amo todas as aparências
com pavor amoroso 
às pretensas evidências.
Amo, desconfiado do meu amor
à substância
e odiando a desconfiança
que me impede de tocar o fundo
do que no fundo não quero achar.
Amo as aparências
porque todas as substâncias
revelam sua falta de fundo
ao toque do olhar
que revela 
o fundo do meu engano.
Amo meu engano
porque ele me impede
do amor ao dessentimento da certeza
que me impele
a uma devoção vertical
que me impede
de me derramar no horizonte
onde me perco de tanto amor enviesado.
Amo, desconfiado,
a paisagem árida da pobreza
que não se dá ao amor.
Amo, mesmo entediado
a beleza óbvia
que se desconfia
enquanto utopia do avesso.
Amo sobretudo o falso conceito de um nada
que se esgota em sua definição.
Amo a invenção precária
que contorna
toda criação turva
que ilumina
a sombra esquiva de amar.

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Escrito por Adrilles Jorge às 14h09
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Agora e sempre

 

Uma folha que cai 
se ergue 
no momento 
da eternidade
de uma queda
que jamais 
desacontece:

um momento 
jamais passa
na história
que o aflora.

Um bicho se sabe imortal 
devorando
cada seu momento 
de eternidade
sem ciência da morte
que ignora.

(O homem
que cuida da morte
- a vida ignora.)

Um amor que cai
se ergue
na brevidade
da ação
que colhe sua vida
num eterno agora.

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Escrito por Adrilles Jorge às 17h19
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