Dois poemas
À ESPERA Desde sempre, ainda te espero quando tua ausência já se firmava e fincava a esperança da morte de nosso abandono Te espero continuamente desde antes e depois da espera de caminharmos juntos não um caminho contínuo mas um emaranhar de passos entrecruzados desencontrados no encontro desesperado de nossas encruzilhadas Te espero no retorno do que não foi ou será mas na volta cíclica do que é ou de além do que venha a ser na perene presença da ânsia na vinda eterna da descoberta sacralizada na memória brutalmente onírica do instante que arrebenta a fome do toque esperado que inviabiliza o tempo que implode a espera e que revela tua presença atemporalmente mais próxima do que jamais conceberá a distância DESAFORO AFETIVO Não mais possuo os restos vivos do teu desejo fabricado pelas circunstâncias: é de outro hoje e sempre por enquanto teu corpo materializado pela perda Mas ainda sobrevive, impávido, o vislumbre constante das tergiversações de teus (des) propósitos Meu chão renovado é a tua impermanência onde me aninho no ventre prenhe de tua incerteza Meu esteio é o contorno infantil de teus lábios crispados em tortuoso irônico pretenso sorriso vitorioso a zombar-inadvertidamente ambivalente- insciente de teus tropeços calculados e da urdidura de tuas quedas Meus afetos sinceros vão para teus nossos projetos previamente destroçados onde e quando então, de nossos pedaços misturados recolherei fragmentos da memória de nossos corpos unificados e erguerei a estátua de nosso assombro despedaçado.
Escrito por Adrilles Jorge às 01h14
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