Adrilles Jorge


Agora e sempre

 

Uma folha que cai 
se ergue 
no momento 
da eternidade
de uma queda
que jamais 
desacontece:

um momento 
jamais passa
na história
que o aflora.

Um bicho se sabe imortal 
devorando
cada seu momento 
de eternidade
sem ciência da morte
que ignora.

(O homem
que cuida da morte
- a vida ignora.)

Um amor que cai
se ergue
na brevidade
da ação
que colhe sua vida
num eterno agora.

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Escrito por Adrilles Jorge às 17h19
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Entendimento

Uma criança me sorri
ao concordar tacitamente
por razões razões avessas
a tudo que lhe disse.

Sorrio de volta
por compreender
menos sua incompreensão
mas o afeto de sua cega tentativa
que nos perdoa
toda falha de comunicação.

Sorrio de novo:
eu sou a criança que descobriu
na oferta esquiva da outra
a real comunicação
para além de sua intenção.

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Escrito por Adrilles Jorge às 01h32
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Felicidade

Há algo de torpe no que se diz felicidade :
algo que arreganha os dentes para a própria cegueira
Há algo de justo e cego na mesquinharia
que inveja o que ninguém jamais deveria possuir :
a felicidade que não fosse um sutil sorriso fechado
que cobrisse os dentes que mordem a violência
de sua indiferença
há algo de irreal no que se quer felicidade :
algo alegre que zomba da plenitude provisória do êxtase
Há tudo de pleno no precário que lhe prende
algo de pleno em ser realizadamente infeliz
pelas mais belas razões
que libertam novos dentes
que mastigam contentes
a carne cozida do contentamento

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Escrito por Adrilles Jorge às 01h21
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Justo

 

Injusto é tudo que não se ajusta
à justiça em que tudo enquadramos.

Não é justo o aceno negado
da beleza que se esconde
diante da procura que a inventa

Não é justa a feiura distribuída
que encanta as visões encantadas
à aparência de beleza
que inebria os cegos 
que tateiam sua fome.

Não são justas as porcões de fome
que se distribuem no pão farto
engolido pela gula
que vomita seu apetite indiferente.

Não é justo o desejo
que jamais se ajusta à intenção
da oferta que o engana.

Não é justa a palavra inadequada
à expressão de sua intenção
que batiza sua sede de sentido.


A justiça se desintegra
na integridade que a sonha.
Mas o real não sonhado
não vale
um indolente acordar desesperado

Justo
é o corpo
que não se molda
ao tamanho de sua desmedida
no universo que não vê
a consciência que o abriga.

 

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Escrito por Adrilles Jorge às 01h16
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Sobre tudo

 

Não só o que foi feito não se desfaz
como o não feito não se refaz:
a palavra perdida, a ação omitida
jamais se perdem na ação omissa
que finca no tempo sua tatuagem
do nada
que desenha na carne
sua cicatriz do esquecimento
que se lembra de si a todo instante


Nada nunca é perdido
na corpo coletivo
da memória que paira acima
do escondido:

teu gesto de recusa é aceito
para sempre pelo testemunho
das pedras, da falsa indiferença
pela presença de um silêncio
que sussurra um berro incontinente
em alguma consciência
que ignora teu olvido

tua justiça calada
é ouvida
pela voz que ecoa
o apelo de sua consciência
o apelo de tua transcendência
para algo além da falsa ausência
que a acompanha
que te acompanha

teu amor ignorado
ou tua ingratidão
ao amor ofertado
são para sempre lembrados
pela história de uma íntima
solidão coletiva
que povoa cada tua ação
cada tua intenção

O que foi jamais retorna.
Mas o que é jamais se esgota:
um erro se faz mais acertado
pela lembrança futura
de um acerto ainda
 nunca de todo consumado.
A imperfeição nos sublima.

Nada, nenhum ato, omissão, pensamento
nem ninguém 
jamais estão sós.

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Escrito por Adrilles Jorge às 15h43
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Objetividade

Procurar as pessoas certas.
Mas não existem pessoas certas.
Consertar os erros 
das pessoas incertas.
E acertar os teus- nossos-
próprios desacertos.

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Escrito por Adrilles Jorge às 13h25
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Falamos

 

Falamos
para tentar
ouvir compreender
o uso da nossa voz
Falamos
para tentar ludibriar
berrar 
o silêncio 
que nos responde
e escuta.

 

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Escrito por Adrilles Jorge às 00h39
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Conselho ao investidor

 

Nada mais justo 
que o que vai além da justiça
que o que doa para além do que lhe cabe
porque o que lhe cabe 
nada mais é que o espaço tátil
do corpo que lhe encolhe

Nada mais torpe
seria o cálculo da doação
que lucra com a intenção
da compaixão?

Seria a ação do mártir
falida pela sua intenção
de uma histórica comoção?

Um empréstimo consciente se faz
entre o usurário do afeto calculado
e o lucro de um bem imaginário:

um bem real se faz
mesmo pela intenção turva
que lhe traz.

O valor do lucro não jaz
na ressurreição da ação
que move o mártir
para além da sua torpe intenção.

Capitalize, investidor,
no erro mais acertado
do próximo ser humano
a ser viabilizado

ainda que o projeto inviável
seja você mesmo
a uma outra aparente falência
integrado.

Uma justiça não cabe
no centavo que a intriga
mas no lucro da doação
que a multiplica
para além da sua razão.

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Escrito por Adrilles Jorge às 15h22
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Quebra-cabelças

 

Componho um quebra-cabeças
que forma uma imagem 
de algo que falta.
Peça por peça,
vai surgindo o desenho 
da que falta absolutamente.
Quase pronto, disperso os pedaços
e me encaixo novamente
no esboço frágil da falta
que destruo.
E recomeço.

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Escrito por Adrilles Jorge às 14h29
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Brinquedo

 

Começou como uma brincadeira.
Tão real a ponto de negar qualquer realidade
para além do brinquedo 
com que se jogava.
O brinquedo se quebrou.
O embrulho de sua ausência
era agora o brinquedo que manuseava.
Desde então, ele brinca com a quebra.
Consertando a realidade
para fora de sua caixa.

 

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Escrito por Adrilles Jorge às 20h22
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Casamento

 

Primeiro veio você:
ideal embalado na projeção
do meu eu incalculado
que se apaixonou pela anulação
do reflexo de mim mesmo
em você fossilizado.

Depois surgiu você:
embrião que se inventou
à imagem e semelhança
de uma velha criança
gerada no futuro da lembrança.

Então desatamos nós:
siameses voluntariamente grudados
gerando o ventre de um cioso lar
onde habitávamos um quadrúpede bipolar
que se partiu em dois fetos atados.

Por fim, se foi você
enfim se fomos nós:
eu mesmo por mim abandonado
no que em você difuso me criei.
E a valsa soturna dancei
à merencória liberdade algemado.

Um dia revi você:
nada mais lembrava
do futuro do passado
em que desde agora
eu estaria para sempre atado.

Um dia acho você:
Não a tendo jamais encontrado
jamais serei por nós abandonado.

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Escrito por Adrilles Jorge às 19h35
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Comunicação

 

Quando boca não pronuncia
o que voz quer dizer
Quando palavra não expressa
o que ultrapassa a voz
querer entender

Quando ação não imprime
o que intenção ao certo não sabe
querer fazer
quando corpo não exprime
o desejo que lhe faz crescer

Quando - sempre - desejo não revela
a invenção que lhe faz nascer

Ou por desejar o que falta
à voz saber
por querer mais
do que ausência de palavra
do que é a ausência na palavra
o corpo 
na voz inaudível de sua ação
se faz morrer

E quando morte não pronuncia
o que vida quer dizer
ouve-se o silêncio
que na voz
se faz entender

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Escrito por Adrilles Jorge às 23h21
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justificação poética para a indiferença


Há na lágima não caída 
no vivo túmulo 
do pai ausente
a úmida culpa redimida
pelo tórrido desejo
na distante mulher presente

Uma rosa que aflora
não colhe
o olho que a adora
sorve a vida que lhe brota
e a morte que ignora

A rosa, como o rato
vivem eternamente 
o momento que lhes brotam
indiferentes
ao sentimento que lhes colam

Há, na indiferença
uma plenitude inexata:

a rosa murcha 
à água que não a toca

o rato estrebucha
na ratoeira
que o esboca

todo homem sobrevive
à indiferença que o evoca:

rega, com lágrimas secas
seu cadáver lasso
devorando a ausência
na ratoeira que lhe brota

E sente assim, efusivamente
o sentimento ausente
do pai ou da mulher
que não o toca.

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Escrito por Adrilles Jorge às 01h16
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Dramaturgia do que sempre houve por dizer

 

Respondo a vozes do passado
Respondo ao silêncio 
da minha voz futura
que ecoa a projeção do presente
que jamais passará

Ecoa a mudez do grito
que ainda hoje espera
por palavra que não veio
que desespera
o anseio da palavra 
que não há
que exaspera
a voz que não ouve

o apelo do sim
que aceita o limite da voz
que não cabe na expressão
que não cabe na intenção
de se fazer ouvir
o vento que tudo arrasta
ao sabor do tempo,

tempo que silencia
ao grito da resposta 
que não houve
do silêncio que não ouve,

tempo que se arrasta
pela voz que o enxerga
e engole na palavra 
que o come

Recrio a palavra 
para caber no tempo
Recrio a cena
para sorver o vento
para calar o tempo

que me embala por dentro
em feroz cantiga
o grito
da palavra não dita
o eco
da palavra maldita.

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Escrito por Adrilles Jorge às 00h12
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Sonhado

 

Sonhei ou fui sonhado,
já não sei.

Já não me lembro de estar acordado
quando alguma pálpebra piscava
o adiamento do dia
na madrugada tardia
em que me esvaía
do sono abortado.

Sonhei- ou me sonharam
um corpo, alma, amor, cueca
ou ideologia de griffe
que acariciava meus quadris
roçava meu nariz
e me empurrava a dormir
no pesadelo acordado

já de pé
em acordo consumado
despertaram meu sono
e a um infinto prazer medonho
me acamaram - ao sonho atado

Sonhei então que despertava
de um sonho jamais vivido
porém
em vigília por espera consumido
acordei
na alheia memória que o criava.

Sonho agora que cochilava
para acordar o sonho
que eu matava.

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Escrito por Adrilles Jorge às 08h59
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